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"Seja parte da mudança que deseja ver no mundo" (Mahatma Gandhi).

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Os 10 discos preferidos de Sherlock Holmes

10 - Therion – The Miskolc Experience




Sempre impressionantes, sobretudo por ser esse um disco ao vivo, nesse trabalho Therion interpreta clássicos de Mozart, Saint Saens, Verdi, Dvorak e Wagner e mais uma vez deixa-nos de queixo caído. Havia um outro disco aqui, mas após conhecer The Miskolc Experience, eu tive que acrescentar algo tão magnífico quanto os demais discos, porém bem diferente. É notável a riqueza teórico-musical da banda e a capacidade de uma interpretação gloriosa e inovadora, que acrescenta à orquestra elementos do metal, como também a energia que faz do Therion uma banda única. O segundo momento, encontrado no disco 2, tráz um Therion no mesmo nível, porém desta vez apresentando suas próprias canções, embora ofuscadas pelas obras primas mostradas com riqueza de detalhes no primeiro disco. Os destaques ficam divididos entre a interpretação dos músicos de metal e a perfeição qual a orquestra executa os vocais líricos e a instrumentação clássica. Nota 9,9.


9-Coldplay – A rush blood to the head


Nada mal para um segundo disco. Talvez o Coldplay conseguisse se tornar a expressão do Rock contemporâneo a partir desse trabalho, porém, infelizmente, os álbuns que deram seqüência a A Rush Blood to The Head não conseguiram manter o mesmo nível dos dois primeiros discos. Entretanto, o referido segundo álbum conta com várias composições de nível altíssimo e com arranjos impecáveis ao piano. As letras de The Scientist e Clocks mostram que o Coldplay realmente tem influências conceituais suficientes para sustentar toda a fama que, diga-se de passagem, é mais do que merecida. O disco conta com uma variação agradável entre as músicas e é difícil escolher a melhor. Produzido por Ken Nelson esse disco venceu o Grammy 2003 e 2004 como melhor álbum alternativo e também levou prêmios à composição Clocks. Toda a crítica curva-se a esse álbum considerando-o superior ao anterior que, a meu ver, não precisa ser comparado, pois também tem canções inesquecíveis. Não obstante, não posso deixar de citar a performance de Chris Martin nos shows desse álbum, pois fica clara sua liderança, carisma e interpretação diferenciada, cheia de emoção em cada canção. Nota 9,7.



8– Anathema – A fine Day to exit


Liverpool, Inglaterra, mais uma vez. Paz temporária, um bom dia para sair, esse sim é um disco diferente. Energia, verdade, elevação, é tudo que esse trabalho passa. Você pode muito bem se perguntar por que me dedico aqui a um disco de uma banda que nem ao menos tem uma representação comercial nacional, porém se você ouvir a voz de Vicent – faço questão da pronúncia britânica para esse belo nome- você poderá perceber que não é preciso tanta técnica para ter seus ouvidos agraciados. A segunda faixa é gloriosa, Release, o substantivo em si, passa mesmo a sensação de liberdade, uma faixa surpreendente até mesmo para uma banda do calibre do Anathema. O disco segue e já na faixa 4 encontramos “Leave no Trace” e novamente nos deparamos com uma canção que não deixa dúvidas de que o Anathema encontra nesse disco sua melhor forma. Enfim, A Fine Day to Exit é um disco que acontece de maneira natural, é não desastroso; sublime... Disco maravilhoso! Nota 9,7.

7 Type O Negative – World Coming Down


Todas as coisas morrem, o mundo está indo abaixo, continuo procurando por algo que não posso encontrar e todas as pessoas que amo estão mortas. São esses alguns dos versos desse disco, com riffs industriais, arrastados, a meio tom abaixo de afinação, um piano tocante e a bela voz de Peter Steele . A crítica midiática eleva dois álbuns anteriores, Bloody Kisses e October Rust que, de fato, não há como negar, são dois discos incomparáveis. Contudo, porque World Coming Down está aqui? Porque esse disco simplesmente não enjoa e é toda a tradução corajoso das angústias de seu notável frontman. Ouça centenas de vezes e você não será capaz de assimilá-lo facilmente como os refrãos melosos das baladas felizes que passam pelas rádios mundiais. Esse disco é um golpe poético, cheio de inteiras verdades em sua composição, com passagens elevadas e vinhetas difíceis de suportar. Sim, é um disco que exalta toda a melancolia e pessimismo de Peter, porém não há nada nele além da verdade ou menos que ela; beleza... O disco tem passagens orquestradas por um piano estonteante, ás vezes parece uma montanha russa, outras um lago calmo pairando névoa, porém sempre constante e belo, com letras realmente profundas. Há também uma versão única, como de costume, de uma canção dos Beatles. A música de trabalho teve de ser adaptada para as rádios e a faixa título convida o ouvinte ao coração de Petrus, a alma da banda, que agora também está morto. Não há sequer uma canção nesse disco que não corresponda as expectativas daqueles que apreciam um som gótico de verdade e as vinhetas, como tácito, não foram feitas para agradar ninguém. Nota 10.

6 Dark Tranquility – Projector


A Suécia não é somente um país que oriunda raros craques como Ibrahimovic ou apenas famoso pelos concursos de beleza. A banda de Gothenburg pode ser também motivo de grande orgulho. Projector é um disco pesado, porém muito diferente do gutural maçante e socado que é ouvido em demasia nas bandas do metal negro contemporâneo. Há uma bela melancolia, passagens com um tom profundo, que faz você querer ouvir mais e mais. Há também momentos em que o disco passa uma energia soturna, uma energia visceral, nada mentirosa, demasiada humana. Um vocal “sujo” pode ser bonito? É isso que Michael Stane prova ser possível em Projector, pois as músicas desse disco o tornam único, é poético, e te levam para uma atmosfera na qual o que se ouve é parte daquilo que se é, e você acaba descobrindo isso durante o disco. Dark Tranquillity, em Projector, é a prova de que nem tudo é igual ao se tratar de música Death, mesmo porque esse disco nunca será repetido, nem mesmo por eles. Simplesmente é único, completo, perfeito, enfim, é um furor. O classificam como Death Melódico, e mesmo podendo ser essa uma categoria discutível, eu concordo plenamente! There In pode ser a faixa que bem traduz e ilustra o valor desse álbum. Nota 10.

5 Travis – The invisible band


Romântico, sim, esse é um disco de rock para curtir a dois. Quem foi que disse que o amor precisa ser brega e com uma trilha sonora piegas? Não, pois você pode ouvir Travis – Invisible Band. É um disco mais que perfeito aos ouvidos, a começar pela capa, que também agrada aos olhos. A banda desaparece em meio a uma grande árvore. Safe e Sing mostram todo o romantismo de bom tom e bom gosto feito por uma banda escocesa que mostra muito bem o que quer fazer nesse belo álbum. Muitos acreditam que o Travis vem da Inglaterra devido a notáveis influências do britpop enraizado nos anos 90. Muitos críticos comparam esse disco com o anterior e sucesso The Man Who, porém creio ser essa uma comparação desnecessária, ao passo que, esse álbum tem o mérito primoroso, e em si, de conseguir ser um álbum de rock com notável originalidade romântica que, a saber, nada tem a ver com seus clipes excêntricos. Nota 10.

4 Rammstein – Mutter



Para variar o gênero de nossas recomendações eis um álbum forte! Riffs pesados, um vocal belo e grave além de composições cheias de emoção e elevação tonal impressionante! Mutter não é somente o nome do álbum, mas também uma composição de elevar o espírito! O clipe é fabuloso, assim como a capa e encarte do disco! A banda alemã, que muitas vezes decepciona os góticos em suas letras com apelações sexuais, consegue transmitir um som em alemão que soa mais poético do que vulgar. Entretanto, se você conseguir traduzir, desse álbum, as belas canções Mutter e Sonne verá que o talendo e força do Rammstein também estende as suas composições que fazem alusão a um tema mais profundo e elaborado. "As lágrimas de uma multidão de crianças envelhecidas/Eu lhes jogo cabelos brancos/Atiro no ar a corrente úmida/E eu queria que eu tivesse uma mãe/Nenhum sol brilha para mim/Nenhum seio me deu leite/Em minha garganta passa um tubo/Não tenho cordão umbilical na minha barriga/Mãe/Mãe/Mãe. Nota 10.

3 Beatles – White Album


Ano de 1968, década de muitas “revolutions”, mas não como a de Charles Manson, inspirado pela canção Helter Skelter. Não há uma tradução gramaticalmente apropriada para o título dessa que, há controvérsias, foi uma das primeiras canções de Metal da história, superando o The Who com sua tentativa de fazer um rock “sujo”. Mas ainda sobre Helter Skelter falemos sobre o significado da expressão que para os britânicos quer dizer: barulho, confusão ou como o brinquedo tobogã (ao traduzir-se a canção, nota-se facilmente a analogia feita com o brinquedo). Estranho isso inspirar assassinatos em série não é mesmo? A justificativa de Charles Manson, ao menos a que ele deu no tribunal, é de que os Beatles seriam os quatro cavaleiros do apocalipse e que estaria tácita na canção a premonição de Helter Skelter (alguém sabe se esse cara era psicótico?). Primeiro disco lançado pela Apple Records que, em 1997, foi nomeado o décimo melhor disco de todos os tempos pela "Music of the Millennium" da Classic FM. Em 1998 a Q Magazine colocou-o em 17° lugar e em 2000 em 7°. A revista Rolling Stone o situou como o décimo entre 500 álbuns da histótia. Já o canal VH1 deixou o famoso Album Branco ou The Beatles no 11° lugar. Segundo a Associação da Indústria de Discos da América, o disco é 19 vezes disco de platina e o décimo álbum mais vendido nos Estados Unidos. Entretanto, o que poucos sabem é que, por trás de tanto sucesso, os Beatles viviam uma crise nessa época que desencadearia um breve rompimento. Após dias na índia, a banda, pela primeira vez, compôs um álbum com canções individuais de todos os membros. Contudo, tão bom mesmo quanto toda a história e contexto referido que cerca o disco são suas mais de 30 canções. Harrison dessa vez surpreende a todos sendo capaz de mostrar um material ainda mais belo que dos principais compositores: Lennon e McCartney. Nota 9,5.

2 Marillion – Marbles


Dave Meegan é um dos responsáveis por esse disco. Quem ele é? Bem, não é segredo para ninguém, porém não irei revelar aqui. O Marillion não tem mais gravadora faz tempo, porém isso parece não ter sido problema. Michael Hunter é outro nome que vocês deveriam situar bem, pois ele também ajudou a tornar o projeto Marbles possível. O disco começa com nada mais nada menos que uma pérola chamada The Invisible Man que, na verdade, não é uma música, nem ao menos encontraria uma definição, algo como: vísceras compondo o grito da alma, um belo grito por sinal. Na versão DVD dá para termos noção dos efeitos que essa música causa, pois é notável que Rogarth não esteja cantando, está em um belo transe em sintonia com sua psicodélica voz, entoada com seu visual. A emoção que Marillion passa no início desse disco é de deixar os álbuns de Fish parecendo trilha sonora de caixinha de música (risos). O disco segue com Marbles I, sem perder a emoção, dando seqüência a uma viagem mais que agradável, inédita, pois o disco lhe transporta para uma atmosfera desprendida e extasiante, a sensação é como se a melodia lhe conduzisse em ondas. O disco segue em alto nível e Don´t Hurt Yourself faz as honras da chamada “música de trabalho”, que na verdade se coloca com um refrão que mais parece uma intervenção analítica devido a consistência de seu conteúdo, sem falar que a música é uma balada de nível. A tetralogia Marbles segue e faz desse disco, sem sombra de dúvida, o melhor do Marillion na fase Rogarth e com certeza o melhor disco do ano de 2008. Nota 10.


1 Pink Floyd - The Wall


Com certeza é muito difícil escrever sobre esse disco. Nem ao mesmo penso ser digno, penso que somente Rogers Waters poderia fazer uma avaliação a altura do que se transformou The wall. Não bastasse o magistral filme, as inspirações revolucionárias – sim o termo não é nenhum exagero-, o show The Wall, os tributos, temos, apartir desse álbum, já uma história, consagrada, com começo, meio, porém longe de seu fim. A sonoridade de The Wall é única, nem mesmo repetida em The Final Cut, o último disco de Waters na banda, no qual aparentemente encontra-se as sobras de estúdio da referida obra e que, diga-se de passagem, é ótimo. Certamente muitos irão discordar quando coloco esse disco como o melhor disco da história do Rock, porém muitos do que irão discordar apontarão os Beatles ou até mesmo outro disco do Pink Floyd como seus favoritos. Entretanto, em termos conceituais, nada é maior que The Wall. Ainda sobre as composições, The Wall tem em si uma atmosfera única, com canções belíssimas, outras fortes, vocais afinadíssimos e o som das cordas insuperável. Nunca conheci ninguém que se cansou de ouvi-lo, cada dia seu vinil vale mais, cada dia esse muro tem um tijolo a mais, está mais alto, mais forte e, melhor do que isso, consegue ser muito mais bonito do que as diferenças entre ocidente e oriente. Rogers Waters tem nos seus discos uma abordagem engajada e discursiva, Gilmour entra com sua bela voz, suas guitarras distorcidase tocantes e, não diferentemente, The Wall reúne todos esses elementos colocando-os no ápice de sua harmonia. Nota 10.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Lixo reciclado à venda:

Não sabemos ao certo a medida da verdade.
Mas sabemos muito bem a dimensão da falta do que não tem volta.
Dor...
Torna-se uma verdade incontestável, por quê?

Textos deprimentes são apenas uma forma de fixação.
Tente elevar-se, sentir seu corpo em movimento, escapar do pensamento.
Não há saídas quando a morte se instaura.
Será?

Ouça boa música, veja vídeos que lhe façam rir, não telefone para se queixar.
Esses conselhos também, melhor se você os achar irrelevantes.
Sinta o vento, bem rápido, e o frio da manhã, se puder.
Tenha um cão.

Pergunte-se por que, caso não encontre a resposta, tome um chá.
Não perca tempo com a TV, até mesmo as notícias podem ser vistas na internet.
Tenha amigos, e perdoe os que te fazem pequenas traições.
Desista de entender certas coisas.

Não abuse do tabaco, ele é muito perigoso.
Deixe as drogas para pessoas que não se importam.
Não pense em álcool, apenas beba aos finais de semana, com amigos.
Mexa-se, a paralisia é um alimento para o medo e para o caos interior.

Água quente ajuda a relaxar e um bom sexo também.
Tenha alguém de confiança para vivenciar seu corpo.
Mude de lugar quando estiver com muita preguiça, faça força para sair.
Viaje para espairecer, mesmo que, sem dinheiro ou a algum lugar próximo.

Não fique muito tempo sem ver o mar, nem mesmo sem subir alguma montanha.
Não maltrate os gatos, mesmo que os odeie.
Não discuta com pessoas pessimistas e mal-humoradas, apenas ouça-as, se puder.
Não dê tanta importância a algumas coisas lidas na internet.

Cuidado com os conselhos, ele impedem que você encontre suas próprias saídas.
Relativize algumas regras, mas não as que todo mundo precisa.
Goste de dinheiro, mas menos que das pessoas ou da vida.
Dance ou veja alguém dançar.

Aceite o insuportável, mas não faça metáforas grandiosas demais.
Não menospreze a cultura e tenha um hobby.
Duvide das pessoas vaidosas demais, mas cuidado com quem vai perceber.
Encontre algum modo de manifestar sua raiva, ela pode virar câncer.

Vá ao médico, mas lembre-se que eles não são Deuses.
Os psicólogos também têm seu momento e devem ser procurados.
Respeite as pessoas mais simples, elas podem ser maiores que você.
Não prenda pássaros em gaiolas, os que voam também cantam para você pela manhã.

sábado, 17 de abril de 2010

Type O Pain - Dead again Peter?

Ei Petrus, aonde você vai neste caixão?

Preferia os tempos do machado nãos mãos...

Deveriam te queimar? Não, pois você não iria querer ser queimado sozinho.

A sua voz, oh, a sua voz...


Verde? Não, ela não tinha só uma cor.

Escrevi para meu pai, e agora tenho que escrever para você, por quê?

Você tem razão, o mundo está mesmo indo abaixo.

Eu vou mesmo sentir falta do seu vozeirão, clamando, retorcendo almas.


A voz da alma tem a mesma força da sua, sorte de quem tem alma.

Sim, tudo morre, pára, como seu coração cansado da escravidão branca.

Eu queria fazer uma canção, cantar como você, pedir para você ficar.

Continuo procurando por algo que não posso encontrar, mas queria ouvir seus gritos.


Vamos Peter, grite comigo, onde quer que você esteja.

Dê-nos um último adeus com uma melodia triste e profunda.

Faça-nos sentir que você está indo, pois isso é lamentável demais.

Ninguém soube dizer tanto o quanto dói de um modo tão bonito.


Ei Petrus, diga que é só mais um alarme falso, uma das suas brincadeiras sem graça.

Petrus você é grande demais, diga-me que não está indo.

Ei Pete, piano fúnebre, nota que crava a dor, bela dor.

Não, eu não quero mais ver, nem mesmo o verde, só quero ouvir a sua voz...




quarta-feira, 17 de março de 2010

Gênero Dissonante

Há momentos em que passamos da conta.
Passamos sim, mesmo não tendo culpa.
O insuportável vem, o indizível...
Sim, estou falando dela, da morte.

Morte que também nos ensina sobre a vida, nos faz querer também descansar.
A morte pode até matar quem amamos.
Mas não pode matar o desejo de quem continua vivo.
Nem a esperança de que essa vontade de nada, de nada mesmo, vá passar.

Sorte de quem deu um último abraço, último adeus.
Disse: eu te amo, várias vezes, inúmeras...
Sorte de quem esqueceu o gênero, dissonante, e pôde dar carinho a um pai.
Sorte de quem viajou junto, sonhou com abraços, viveu-os.

Não há o que dizer quando alguém se vai.
Lágrimas se tornam um oceano de significantes.
A saudade torna-se lei imperativa.
E passamos a ter coragem de, e, fazer em uma semana, o que não tivemos coragem de fazer em toda uma vida.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Remédios Psiquiátricos (benzodiazepínicos): efeitos colaterais de uma colateralidade discursiva.

É Foucault (1970) que, em “A Ordem do discurso de 1970”, concebe a Psiquiatria enquanto um discurso de poder. O autor postula que a psiquiatria e os diagnósticos são uma categorização de uma desordem (loucura), até então impenetrável por uma ciência – definida como um arranjo sem furos de um saber operante e suficiente--, capaz de operar sobre os “males” sociais que acometem aqueles tomados pela loucura. A Psiquiatria nasce, segundo Foucault (1997), para equivaler e sustentar os ideais da Revolução Francesa, dando margem ao autor para considerá-la uma invenção, perspectiva que pode ser tomada como absurda para a “ortodoxia discursiva” presente nos enunciados contemporâneos da medicina. Para Foucault (1970), a Psiquiatria é um discurso que “inventa” um objeto para intervir, ou seja, em decorrência de condições discursivas sociais e de época, loucura e Psiquiatria passam a ter uma relação necessária em deferimento de uma questão de poder.
Contudo, os efeitos da categorização geraram manuais performativos como, os conhecidos nos dias atuais, CID-10 e DSM-IV. Para tanto, viera a indústria farmacêutica e seus efeitos sociais, terapêuticas e remédios, enunciados concomitantemente, a seu, e enquanto, poder.
Segundo informações do último Congresso de Psiquiatria realizado na capital da República Federativa do Brasil, a discutir a CID-11, 100% das pessoas poderão ser encaixadas em um ou mais diagnósticos psiquiátricos na próxima Classificação Internacional de Doenças, ou seja, 100% das pessoas são “candidatas” a serem medicadas.
Não obstante, nada pode se notar como genuíno na referida perspectiva, ao passo que, Foucault (1970) já previa tais efeitos, enquanto efeitos de um discurso de poder.
Não adentraremos mais no enunciado, devido a necessidade de discutir sobre questões relativas a medicamentos Psiquiátricos usados na contemporaneidade, entretanto esperamos que tenhamos situado a partir de que lugar iremos discorrer nossa breve análise.
Se a loucura passa a ser doença, a normalidade mental também passa a ser um balizador para tal e a indústria farmacêutica atual intervém a partir de tais parâmetros, portanto, vendem-se medicamentos para aliviar sofrimento e/ou normatizar, porém nem sempre a demanda é clínica.
Dando um grande passo adiante, trataremos sobre os medicamentos benzodiazepínicos, comumente utilizados e prescritos em nosso século, sobre seus efeitos colaterais e seus riscos, sejam clínicos ou sociais.
Segundo o departamento de Psicobiologia da UNIFESP/EMP (2009), a respeito dos benzodiazepínicos, obtivemos que “incluem-se nesse grupo agentes, que em certos casos, substituíram os barbitúricos, ou que apesar de terem uso restrito ainda são utilizados na medicina atual. Esses compostos foram introduzidos devido à necessidade de sedativos e hipnóticos não-barbitúricos. No entanto, tornaram-se drogas de significante uso abusivo. As drogas que podem ser assim classificadas são: benzodiazepínicos, paraldeídos e brometos”. Por conseguinte, extraímos informações, ainda providas da referida fonte, que consideram que os medicamentos benzodiazepínicos promovem a ligação de neurotransmissores inibidores, como o a-aminobutírico (GABA), à receptores na membrana dos neurônios, o que provoca “um aumento de correntes iônicas através dos canais de cloreto, inibindo a atividade neuronal” (UNIFESP/EMP, 2009). Muitos desses medicamentos são usados e prescritos comumente no Brasil, como, por exemplo, o Diazepam, Clonazepam e Lorazepam. No entanto, caso esses medicamentos sejam administrados em doses elevadas, efeitos como: sono, inconsciência, anestesia cirúrgica, coma e a depressão fatal da regulação respiratória e cardio-vascular, são observados. Por fim, caso usados em doses muito elevadas esses medicamentos podem causar o coma, depressão respiratória fatal e/ou o bloqueio da transmissão neuromuscular. Alguns efeitos indesejados são comumente esperados e tolerados pelos usuários, tais como: “graus variados de tonteira, lassitude, tempo de reação aumentado, falta de coordenação motora, comprometimento das funções mental e motora, confusão, amnésia anterógrada, alterações nos padrões de sono, fraqueza, cefaléia, turvação visual, vertigem, náuseas e vômitos, desconforto epigástrico e diarréia, dores articulares, torácica e incontinência urinária”.
Não obstante tais colateralidades, muitos pacientes fazem uso abusivo desses medicamentos e acabam a ficar dependentes. Dependência esta que tem seus efeitos regulados pela magnitude das dosagens mensuradas aos pacientes que, acabam fazendo um usufruto irregular da medicação, contrariando a devida prescrição médica.
A questão que se faz, sem ignorar a intoxicação fisiológica desses pacientes, é que tipo de discurso sustêm o uso indiscriminado de tais medicamentos, ao passo que eles se tornaram cotidianos e a responsabilidade pelo excesso ainda não encontra um devido lugar de endereçamento. Usam-se tais drogas, muitas vezes, pelo alívio ou prazer que essas permitem, não sendo resguardados os fins terapêuticos exclusivos. É provável que um discurso hedonista e/ou capitalista seja provedor da suficiência perversa dessa prática, entretanto, para sustentarmos tal premissa, precisaríamos de uma análise de discurso mais aprofundada.
Lacan (1969/1970) postula que no discurso capitalista o sujeito tem uma relação direta com o objeto, ou seja, que não há mediante ao gozo uma subjetivação. Logo, poder-se-ia inferir que um medicamento com fins de “excesso” seria um gozo não mediado por uma responsabilidade subjetiva do sujeito, intermediada pela função simbólica. A prescrição em excesso permite uma alienação e um gozo desenfreado por meio da “colagem” que o sujeito faz com o objeto de “alívio” e excesso/gozo que passa a representar o medicamento.
Portanto, a transferência com o medicamento poder-se-ia tornar-se sintomática e tal fato é reforçado pela estética discursiva que permeia as prescrições desenfreadas em deferimento do poder que a indústria farmacêutica exerce sobre a medicina psiquiátrica.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Um breve comentário sobre o seriado Lost.

Sempre que pergunto sobre cinema a alguns intelectuais muitos deles hesitam em reconhecer a magnitude do cinema americano. Penso que esta posição é muito devido ao fato de uma impregnação, de uma tendência mundial a resistir à cultura americana, que se tornou ainda mais repudiável nas últimas décadas, talvez ou também em conseqüência da expressão ideológica que passou a criticar a política externa dos Ianques. Entretanto, até mesmo os fascinados pelo cinema Europeu ou Canadense devem se curvar a Ilha, pois Lost não é somente uma novelinha capaz de prender expectadores por conter enigmas curiosos em seu roteiro, romances comoventes ou atores esteticamente bem vistos, como, por exemplo, o brasileiro Rodrigo Santoro, que faz uma personagem de pouca importância na série. Lost é um bem mais do que isto e tenho certeza de que as mentes que estão por detrás das câmeras sabem muito bem o porquê do sucesso da série.
Já imaginou um lugar no qual você não pudesse mais fugir de seus medos, fantasmas inconscientes, traumas e fosse o tempo todo convocado a se responsabilizar por seus tormentos, por sua repetição? Bem, é exatamente isso que aquela ilha é capaz de fazer com as personagens envolvidas na trama. Não há trégua, pois, em Lost, negar a responsabilidade do caos interior é o último desfrute que tem aquelas personagens.
Tramas edípicas são remontadas. Fantasmas paternos, questões significantes, traumas inconscientes, tudo isso acomete às personagens de Lost. E o melhor para quem assiste? Eles não têm para onde fugir. Já nós? Nós temos a chance, como muito bem ressaltam os diretores da série, de nos identificar com personagens que com o passar dos episódios já não podem mais serem facilmente julgados.
Paranóia, sobrevivência instintual, transcendência metafísica, mistérios, tecnologia, física quântica, romances, fé, intuição, razão, ação, suspense, drama, alegrias, paz e, principalmente, surpresas... Sim, são estes muitos dos principais elementos que compõem o referido trabalho cinematográfico, se é que posso chamar assim.
Um lugar onde não há Totem (seria a própria ilha?) e nem mesmo um único discurso dominante. Um lugar onde o demasiado humano se confronta com questões interiores recompostas no real, representadas pelo sobrenatural. Jogos psicológicos, personagens coerentes e fortes. Ora, o que será mesmo que eles querem nos dizer?
Recomendo Lost! Não somente para aqueles que gostam de analisar, mas também para quem se dá o desfrute de projetar emoções, pois para nós, que somos reais e estamos realmente “perdidos”, ainda há maneiras de fugir...